 Entenda a educomunicação
Ismar de Oliveira Soares, 65 anos, é jornalista, doutor em comunicação pela ECA/USP, com pós-doutorado na Marquette University, em Wisconsin, nos Estados Unidos. Coordenador e fundador do Núcleo de Comunicação e Educação da Universidade de São Paulo (NCE-USP), Soares foi precursor dos estudos de educomunicação no Brasil. Leia a seguir trechos da entrevista concedida à reportagem, na qual ele explica como surgiu e qual é significado do conceito educomunicação, além de indicar caminhos para os professores que queiram inserir as mídias em suas práticas de ensino.
CP Geografia - Em que contexto surgiu o conceito da educomunicação no Brasil?
Ismar de Oliveira Soares - Inicialmente, eu queria dizer que eu sou professor de geografia, formado pela Faculdade Salesiana de Lorena. Durante 16 anos eu lecionei geografia no Colégio São Luís na Avenida Paulista e em colégios estaduais. Isso foi dos anos 1970 até meados dos anos 1980. E durante todo esse período eu sempre utilizei em aula os programas de televisão que faziam coberturas geográficas, que mostravam a configuração geográfica, a geografia humana, física, política. Globo Rural sempre foi um programa que eu apreciei muito, depois o Globo Ecologia, e outros canais. E quando veio canal por cabo passei a utilizar os canais que se dedicavam especialmente à documentação. E como sou formado também em jornalismo, sempre tentei aproximar a comunicação com a educação. Quando comecei a me voltar para a relação comunicação e educação, eu tomava como referência toda a minha prática de uso da mídia em sala de aula quanto à prática das pessoas que lutavam pela preservação do meio ambiente. E também os grandes movimentos como Greenpeace, que fizeram o uso da mídia na defesa de seus interesses ou colocavam a mídia a interesse deles para que fosse divulgado algo relacionado às suas causas.
"A educomunicação vem surgindo desde a década de 1970 para representar todo esforço feito pela sociedade na defesa de causas como as dos indígenas. Ela vem surgindo na América Latina por meio de grupo de pessoas que se reúnem para usar os recursos da informação na defesa de seus interesses a partir da perspectiva freiriana da comunicação dialógica."
Ismar de Oliveira Soares
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CP Geografia - Então, o surgimento da educomunicação tem relação com a geografia?
Ismar de Oliveira Soares - A educomunicação vem surgindo desde a década de 1970 para representar todo esforço feito pela sociedade na defesa de causas como as dos indígenas. Ela vem surgindo na América Latina por meio de grupo de pessoas que se reúnem para usar os recursos da informação na defesa de seus interesses a partir da perspectiva freiriana da comunicação dialógica. Então, a educomunicação é praticada, inicialmente, por professores do meio ambiente, por exemplo, que começam a usar tanto a rádio comunitária quanto o vídeo e outras formas de mobilização como teatro, música, vídeos, formação de grupos para a defesa do meio ambiente. A educomunicação deu um novo sentido para a prática comunicativa neste contexto. Em vez de a prática comunicativa estar a serviço, por exemplo, da indústria cultural, de ser regida pela indústria cultural, ela passava a ser regida pelos objetos educativos.
No caso, a parte da cidadania passou a ser mais importante que os jogos do mercado. E, ao longo dos anos, essa prática foi se concretizando em algumas ações específicas. Uma delas era o que se chamou por muito tempo de leitura crítica dos meios de comunicação. A primeira prática educomunicativa era observar o comportamento da mídia. Como era prática educomunicativa também usar a mídia e forma alternativa. Então, a mídia alternativa e a leitura crítica da mídia eram dois braços, duas vertentes da mesma prática.
CP Geografia - E neste período o senhor ainda dava aulas de geografia?
Ismar de Oliveira Soares - Eu estava em sala de aula, estava em movimento popular e observava o que os grupos faziam. Como pesquisador, via que as pessoas estavam fazendo isso. O que vim fazer na USP no final os anos 1990 foi pesquisar e sistematizar tudo isso. Foi uma pesquisa especial patrocinada pela FAPESP, voltada a identificar o que os especialistas imaginavam o que acontecia na interface comunicação e educação. A pergunta era o que acontecia de fato nessa interface?
Eu pesquisei junto a esse público e descobri que o que eles faziam era assumir novas práticas. Eles faziam uma educação para a comunicação no sentido da leitura crítica da mídia ou produziam uma comunicação alternativa, que era toda a comunicação feita fora da indústria cultural para a defesa dos interesses de grupos populares. Agora, o que aconteceu de diferente naquele contexto é que toda a inspiração de Paulo Freire fez com que os que produziam comunicação alternativa começaram a observar como eles a produziam. Se, ao produzirem comunicação alternativa, seguiam as mesmas regras da indústria cultural, que são as regras de distribuição de funções em que existe um editor, um repórter, o dono do veículo, e jogos de interesse manejando a definição do que era pauta, conteúdo. A comunicação alternativa começou, nesse sentido, a examinar se reproduziam essas formas ou se estavam optando por uma gestão democrática dos processos. Quando se entendia que o grupo que produzia era um grupo que se autogovernava, se a gestão comunicativa era uma gestão comunitária, com base em práticas participativas, se entendia que estava existindo ali um perfil diferenciado de produção de mídia. A mesma leitura crítica passou a ser uma autoleitura crítica ou leitura da própria comunicação. Então, a educomunicação se consolida neste contexto, quando grupos de pessoas de vários lugares da América Latina, Estados Unidos, Índia, tiveram consciência de estarem articulados de forma democrática. Elas vão, com isso, consolidando um novo modo de produção, que tem referencial semelhante, metodologias semelhantes, e, por consequência, resultados semelhantes.
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CP Geografia - Assim nasceu o conceito, mas o termo, quando foi utilizado pela primeira vez?
Ismar de Oliveira Soares - O termo educomunicação já era usado em 1980 pela Unesco para indicar leitura crítica dos meios e a USP foi ressemantizar esse termo, que não era muito conhecido, para dar a ele um novo sentido. Que é o sentido de uma prática nova. Um exemplo é a Revista Viração, prática em que você toma a decisão de fazer uma gestão participativa de uma revista, de fazer processos dialógicos, e não só isso, mas quando você cria condições para que isso aconteça. No caso, a Revista Viração se avalia, faz a sua autoleitura crítica, corrige rumos, vê a sua coerência epistemológica, que é a coerência entre teoria e prática. Junto com o exemplo da Viração, você pode encontrar uma escola com suas produções midiáticas.
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