Reportagens

Colômbia e as Bases Militares dos Estados Unidos


A Colômbia voltou às manchetes dos jornais brasileiros não pela atuação da tradicional guerrilha no país, mas pela possibilidade de instalação de sete bas es militares dos EUA.


Por Charles Pennaforte

Divulgação Flickr/The Official White House Photost
O Presidente da Colômbia Álvaro Uribe se encontra com o Presidente dos Estados Unidos Barack Obama na Sala Oval da Casa Branca

Depois da tentativa de instalação (malsucedida) de uma base no Paraguai e da recusa em renovar a manutenção da base de Manta pelo presidente do Equador, Rafael Correia, os EUA recorreram ao seu tradicional país aliado na América do Sul: a Colômbia.

Por dentro do contexto
Desde o início da década, a América Latina passou pelo processo que os cientistas políticos denominam de "guinada à esquerda". Traduzindo: inúmeros países passaram a ser governados por partidos tradicionais de esquerda ou que fizeram coligações com eles. São exemplos claros desse cenário a Venezuela, o Brasil, o Equador, a Bolívia, o Paraguai e o Uruguai.

 

Há um bom tempo a Colômbia é alinhada aos interesses da política externa norte-americana. De certo modo, isso pode ser compreendido em função da existência, há mais de quarenta anos, das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farcs) que chegaram a controlar uma boa parcela do território.

Divulgação Flickr/The Official White House Photost

Base de Manta
A Base Aérea de Manta é uma base militar e um aeroporto civil localizado nos subúrbios da cidade de Manta, no oeste do Equador. Até julho de 2009, uma parte do aeroporto era usada pela Força Aérea Norte- Americana como base para operações contra o tráfico de drogas. As aeronaves americanas faziam cerca de cem voos por mês, procurando por embarcações suspeitas de servirem ao tráfico de cocaína, que partissem da Colômbia. Um acordo entre o governo dos EU A e o então presidente equatoriano, Jamil Mahuad, foi firmado, em 1999, para que a Força Aérea Norte- Americana pudesse utilizar o aeroporto de Manta por dez anos.

Os guerrilheiros, desde o final dos anos 1960, defendem a revolução socialista como solução para as mazelas sociais da Colômbia. Ao mesmo tempo, o narcotráfico ganhou força até obter destaque na economia e política colombiana.

O narcotráfico colombiano encontrou uma boa rentabilidade como principal fornecedor dos EUA. A sociedade norte-americana é a maior consumidora de drogas do mundo. Como o combate ao consumo de drogas fracassou no país, as autoridades dos EUA passaram a ter como objetivo a eliminação do cultivo.

Para dar prosseguimento ao intento, o governo norte-americano criou, em 2000, o chamado Plano Colômbia, cujo objetivo era fornecer ajuda econômica e assessoria militar ao governo colombiano para combater o narcotráfico e, de quebra, a guerrilha. Na realidade, também havia outro grande interesse: aumentar a presença militar dos EUA na região, já que os "tempos esquerdistas" estavam retornando.

Em 2004, sob a administração George W. Bush, surgia a Iniciativa Andina Antidrogas . O contorno de uma presença efetiva na Colômbia se delineava não só para o combate ao narcotráfico, mas mantinha a pressão contra a guerrilha esquerdista, o grande interesse do governo colombiano.

Segundo o cientista político e especialista brasileiro em política externa, Luiz Alberto Moniz Bandeira, a ajuda econômica dos EUA à Colômbia a partir de 2004 chegará a mais de 3 bilhões de dólares em 2009.

Uma questão econômica
Ao não renovar a base da militar de Manta no Equador, os EUA direcionaram os seus olhos para a Colômbia como uma solução estratégica para os seus interesses econômicos e geoestratégicos.

A ideia dos EUA é montar sete bases em território colombiano: Malambo, Cartagena, Baía Málaga, Palanquero, Tolemaida, Larandia e Apiay. Com tais bases as Forças Armadas dos EUA teriam um raio de atuação de 3.706 km tendo com centro a base de Palanquero.

Divulgação Flickr/The Official White House Photost

Iniciativa Andina Antidrogas
Iniciativa do ex-presidente dos Estados Unidos, George W. Bush. Por meio desta, o governo norteamericano destinava verba para o combate ao narcotráfico (cerca de 400 a 500 milhões de dólares por ano), que era enviada ao governo de países da região andina. A maior parte do dinheiro ia para a Colômbia, mas outros países se beneficiavam, como Peru, Bolívia, Equador, Venezuela, Panamá e até o Brasil.

Logicamente, a Amazônia brasileira (Legal) ficaria totalmente "enquadrada" na zona de atuação militar dos EUA. Sob o ponto vista econômico, os oleodutos colombianos ficariam mais protegidos dos ataques constantes da guerrilha.

O tema ganhou destaque quando o presidente venezuelano Hugo Chávez fez a denúncia do "perigo" dessas instalações para a América do Sul. Através do seu tradicional estilo de oratória, Chávez mencionou a possibilidade uma "guerra" na América do Sul.

Desconsiderando-se seu jeito falastrão, Chávez (como bom militar) notou rapidamente o que essas bases podem representar em um possível cenário de "aquecimento" das relações políticas no subcontinente.

O fato é que grande parte dos países latino-americanos se pergunta sobre a necessidade real das bases na América do Sul. Os estrategistas e geopolíticos sabem muito bem a resposta, inclusive os brasileiros.

*Charles Pennaforte é diretor do Centro de Estudos em Geopolítica e Relações Internacionais (CENEGRI) do Rio de Janeiro. Coordenador da linha de pesquisa Reordenamento Territorial no Mundo Contemporâneo (GERT/CENEGRI). Editor da revista Intellector do mesmo Centro. Autor de inúmeros livros, entre eles: Panorama Contemporâneo - Geopolítica e Relações Internacionais (Cenegri Edições), África - Horizontes e Desafios no Século XXI e Amazônia - Contrastes e perspectivas (Editora Atual). Doutorando em Relações Internacionais pela Universidad Nacional de La Plata, Argentina

 
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