Reportagens

Orações e Confusões


Como lidar com períodos compostos e suas classificações


por Maurício Silva

 

Apresentarem
Um exemplo é a discussão em torno do fato de a correlação - isto é, quando ambas as orações coordenadas são iniciadas por uma conjunção - ser ou não um processo especial de coordenação.

 

Estudar os períodos compostos na escola quase sempre foi uma "tortura" para os alunos que tinham que se aventurar em nomenclaturas, regras, formas e estruturas sintáticas nem sempre condizentes com a linguagem comum do dia a dia. Felizmente, essa situação tem mudado, com um ensino mais voltado para aspectos textuais do idioma.

Ainda predomina, contudo, em algumas séries dos ensinos fundamental e médio, a abordagem normativa da gramática da língua, o que torna particularmente angustiante o convívio dos alunos com o idioma. Porém, visto de uma perspectiva generalista, o tópico gramatical dedicado ao período composto não é assim tão complicado. ou quase! Didaticamente falando, o período composto é aquele que contém as orações coordenadas e orações subordinadas, sendo que estas últimas se subdividem em substantivas, adjetivas e adverbiais, além de se apresentarem sob a forma de orações desenvolvidas ou reduzidas.

As orações coordenadas são orações independentes que formam os períodos compostos por coordenação, processo a que o gramático Rocha Lima (em sua Gramática Normativa da Língua Portuguesa) definiu como "a comunicação de um pensamento em sua integridade, pela sucessão de orações gramaticalmente independentes". Há, assim, cinco tipos de orações coordenadas: aditivas, adversativas, alternativas, conclusivas e explicativas.

Passada essa primeira fase dedicada, por assim dizer, às definições, alguns pequenos percalços gramaticais começam a tirar o sono do estudante, constituindo- se no que, vez por outra, costumamos chamar de exceções. É o caso do fato de, embora as orações coordenadas sejam independentes entre si, alguns gramáticos consideram que a primeira delas, no período composto por coordenação, é a principal, recebendo o sugestivo nome de culminante ou predominante.

Contudo, a bem da verdade, numa relação de coordenação, todas as orações coordenadas possuem o mesmo valor sintático. Desconsiderando outros problemas conceituais que as orações coordenadas podem, eventualmente, apresentar, o que resta, em termos de períodos compostos por coordenação, são alguns fatos inusitados, perceptíveis a partir da maneira como as orações se organizam sintaticamente.

Divulgação /

É de extrema importância a presença da preposição (em geral, de) encabeçando a oração subordinada substantiva completiva nominal, pois, para alguns gramáticos, sua ausência acaba transformando- a em oração subordinada substantiva objetiva direta.

Casos complicados

É o caso, por exemplo, de algumas conjunções coordenativas que se comportam de forma "atípica", dependendo da situação em que aparecem, como acontece com a conjunção "e", que ora pode ter valor aditivo ("Ele chegou, olhou e saiu"), ora adversativo ("Ele chegou, e logo quis sair"); ou com a conjunção "no entanto", que pode ter valor adversativo ("Ela sabe tudo, no entanto não pretende contar nada"), ora adverbial concessivo, equivalente a "apesar disso" ("A prova estava difícil, mas no entanto [=apesar disso] as notas foram boas").

Outros casos são, aparentemente, mais complicados, como o da conjunção "pois", que tanto pode ser conclusiva ("Não vi o acidente, não posso, pois, apontar o culpado"), como explicativa ("Não diga isso, pois não é verdade"). A diferença, nesse caso, é de posição da conjunção, o que acarreta alteração de sentido da oração: enquanto nas orações coordenadas conclusivas o pois vem posposto ao verbo ("Estava chovendo muito, não pude, pois, ir à festa"), nas orações coordenadas explicativas, ele vem anteposto ao verbo ("Não pude ir à festa, pois estava chovendo muito").

Em matéria de surpresas, as orações subordinadas não ficam atrás. Sabemos que as orações subordinadas são aquelas, conforme a definição de Napoleão Mendes de Almeida, em sua Gramática Metódica da Língua Portuguesa, que "completa(m) o sentido de outra dependente, chamada principal, à qual se prende(m) por conjunções subordinativas ou pelas formas nominais do verbo". As orações subordinadas se dividem, assim, em três grandes grupos: as substantivas, as adjetivas e as adverbiais, de acordo com a função sintática que desempenharem no período.

Algumas condições, no que compete à preposição que as acompanha, precisam ser, contudo, obedecidas, a fim de que se defina com precisão sua função sintática no período. Por exemplo: é de extrema importância a presença da preposição (em geral, de) encabeçando a oração subordinada substantiva completiva nominal, pois, para alguns gramáticos, sua ausência acaba transformando-a em oração subordinada substantiva objetiva direta, uma vez que a oração principal passa a adquirir, segundo Napoleão Mendes de Almeida, na gramática já citada, "força transitiva direta equivalente a verbo transitivo direto".

Assim, a oração subordinada substantiva no período "Tenho medo de que ele sucumba" desempenha o papel de complemento nominal (oração subordinada substantiva completiva nominal), enquanto que no período "Tenho medo que ele sucumba", seu papel é de objeto direto (oração subordinada substantiva objetiva direta).

Definições

Coordenação
Chama-se coordenação a sequência de orações em que uma não exerce função sintática da outra. A coordenação pode ser feita não só entre as orações independentes (coordenadas e intercaladas) mas ainda entre as dependentes (subordinadas) que não exercem função sintática entre si:

Ouve e obedece aos teus superiores.
Espero que estudes e que venças na vida.

No primeiro exemplo há duas orações independentes que se coordenam; no segundo, encontra-se uma principal (espero) que tem como objeto direto as orações dependentes que estudes e que venças na vida. Como se trata de orações que não exercem função sintática entre si, podem-se coordenar. Ocorre a coordenação entre orações subordinadas quando estas exercem a mesma função sintática de uma principal.

OBSERVAÇÃO: A maioria dos tratadistas tem colocado em pontos opostos coordenação e subordinação, mas um exame detido nos patenteia que a oposição que se deve estabelecer não é entre orações coordenadas e subordinadas, mas entre orações independentes e dependentes. A coordenação é um processo de estruturação de orações do mesmo valor sintático, quer sejam independentes (onde a equivalência é permanente) ou dependentes (onde a equivalência se dá quando exercem idêntica função sintática). Infelizmente a NGB, embora reconhecendo que "coordenadas entre si podem estar quer principais, quer independentes, quer subordinadas", não rompeu de uma vez por todas com a tradicional oposição que aqui pomos de lado.

Fonte: Moderna Gramática Brasileira, Evanildo Bechara. Editora Lucena, 2000.

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