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Gênero de texto como uma ação social da linguagem


Os gêneros textuais podem se tornar ferramentas para as interações sociais e para a reflexão sobre o desenvolvimento de competências de leitura e análise. E o que você tem a ver com isso, professor?


por Iran Ferreira de Melo*

 

Profícuo campo
Vários são os autores que tratam o texto como gênero. A teoria dos gêneros textuais entende que um texto não é apenas forma, mas uma materialidade que possui função comunicativa. Para Mikhail Bakhtin, em seu livro Estética da criação verbal, o gênero é um enunciado de natureza histórica, sociointeracional, ideológica e linguística relativamente estável. Segundo Charles Bazerman, em seu livro Gênero, agência e escrita, os gêneros são o que as pessoas reconhecem como gêneros a cada momento do tempo, seja pela denominação, institucionalização ou regulação. Os gêneros são rotinas sociais do nosso dia a dia, são fatos sociais. Já Luiz Antônio Marcuschi, em Gêneros textuais: reflexões e ensino, afirma que os gêneros são formas culturais e cognitivas de ação social corporificadas de modo particular na linguagem.

 

A língua é um fenômeno social, por isso heterogênea, indeterminada e calcada em processos históricos e culturais. Diante dessa assertiva, a proposta dos Parâmetros Curriculares (PCN) de Língua Portuguesa criteriza um ensino de língua materna a partir da perspectiva teórica dos gêneros textuais, a qual vem contribuindo para os estudiosos da linguagem como um profícuo campo de descrição linguística que aborda o texto a partir de várias situações sociocomunicativas.

Em conformidade com o que nos apresenta a professora Ingedore Koch, em seu livro O texto e a construção de sentidos, quando afirma que esse tipo de abordagem reconhece a existência de um sujeito organizador/planejador que, em sua interação com os outros, constrói sentido sob a influência de uma complexa rede de fatores, o professor, ao refletir sobre o ensino de língua na perspectiva dos gêneros textuais, pode contribuir com o trabalho de letramento escolar, criando estratégias promotoras de usos e análises relevantes sobre o funcionamento linguístico, fornecendo compreensão acerca dos procedimentos mais adequados para que o curso da aprendizagem se realize, tendo uma percepção da linguagem muito mais como parte das atividades da vida do que como instrumento para transmissão do saber normativo, descontextualizado e fragmentado.

Concepções políticas

Cada um de nós desenvolveu, ao longo da vida, concepções do que seriam ler e escrever. Em função de diversas práticas sociais que executamos, aquilo que sabemos - ou pensamos que sabemos - sobre os atos de leitura e escrita enriquece ou empobrece, dinamiza ou paralisa, dirige ou desvia, conscientiza ou aliena as ações relacionadas com a formação de leitores e escritores.

Diante disso, o estabelecimento de objetivos para o encaminhamento do trabalho pedagógico com a leitura e a escrita exige que o educador assuma e demonstre, na prática, um posicionamento político frente à realidade social e ao papel da escola

 

Ezequiel Silva
Uma das maiores autoridades sobre leitura no Brasil, Ezequiel Silva defende que: "O problema da leitura no contexto brasileiro deve ser colocado figurativamente falando, em termos de uma leidura, isto é, em termos de um conjunto de restrições agudas que impede a fruição da leitura, do livro por milhões de leitores em potencial. É essa mesma lei-dura que vem colocar a leitura numa situação de crise, num reflexo de crises maiores presentes em nossa sociedade, onde estão presentes a injustiça, a desigualdade, a fome e a falta de liberdade e democracia. Neste contexto, torna-se muito mais fácil encontrar pessoas que não têm acesso à informação, aos diversos referenciais inscritos em diferentes tipos de livros."

 

A estruturação do ensino de leitura e escrita depende, antes de tudo, da explicitação dos objetivos que se pretende atingir com o processo de ensino de uma língua. Esses objetivos são afetados pela concepção que o educador tem do que seja a leitura e a escrita, uma vez que toda e qualquer metodologia de ensino articula uma opção política que envolve uma teoria da compreensão e interpretação da realidade a partir dos mecanismos utilizados em sala de aula.

Segundo a análise do professor Ezequiel Silva em seu livro Leitura na Escola e na Biblioteca, há duas formas de atuação do profissional da educação: educar para a adaptação ao meio, ou seja, submeter os educandos à ordem estabelecida, tornando-os submissos às estruturas sociais vigentes, ou educar para a libertação e transformação, isto é, submeter as contradições e os valores do presente à crítica dos educandos, de modo que a sobrevivência e a convivência social, em seus diferentes aspectos, possam ser transformadas por eles.

No primeiro caso, a pregação do conformismo e da obediência, com o objetivo de conservar ou reproduzir o atual sistema de valores, é a tônica das ações executadas pelo educador; já no segundo, a pedagogia centra-se no estudo rigoroso da realidade, levando em consideração, por um lado, o tipo de sociedade em que se vive e a ideologia imperante e, por outro, as necessidades reais dos educandos, a sua curiosidade e sensibilidade, no sentido de produzirem e refletirem sobre o conhecimento.

Essas afirmações põem em pauta a importância do trabalho com a perspectiva de gênero nas interações sociais, bem como nos convida a refletir sobre a pertinência e a urgência dos docentes discutirem a sua responsabilidade no desenvolvimento de competências de leitura e análise desse domínio, com vistas a:

1. Estimular nos alunos o melhor desempenho na produção de variados gêneros textuais orais e escritos (notícias, artigos de opinião, publicidades, entrevistas, entre outros), os quais consideramos paradigmáticos na diversidade temática, estilística e composicional dos textos com os quais nos deparamos no dia a dia;

2. Levar os alunos à compreensão de que todos os gêneros de texto são artefatos culturais e, portanto, reveladores dos sujeitos produtores, de sua história e de suas crenças;

3. Discutir com os alunos as características de variação e heterogeneidade linguísticas, fazendo-os perceber a língua como fenômeno situado, determinado, histórico, dialógico e ideológico;

4. Propiciar que os educandos compreendam a noção de adequação linguística, levando-os à compreensão de que os diferentes modos de uso da língua são igualmente funcionais e que o prestígio de uma variedade é resultado de suas contingências sócio-históricas.

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