Reportagens

Palavras invariáveis


As regras gramaticais para as palavras invariáveis são cada vez mais ignoradas no uso cotidiano da língua.


por Prof. Leo Ricino*



Palavras variáveis
Atenhamo-nos às palavras. Como foi dito, são dez classes à nossa disposição: substantivos, adjetivos, artigos, numerais, pronomes, verbos, advérbios, preposições, conjunções e interjeições. Preposições e conjunções são conectores e não contraem, por si sós, nenhuma função sintática. A interjeição também não, porque ela representa apenas reações súbitas provocadas por admiração, susto, medo, desespero, esperança, ira, ódio etc. Então, para as funções sintáticas, restam sete classes de palavras. Modernamente, podemos imaginar dois feudos:

Nesse primeiro feudo, como se pode ver, o todo-poderoso é o substantivo. Para ele trabalham os quatro tipos de adjetivos (ou seja, o adjetivo propriamente dito, o artigo, o numeral e o pronome). E trabalham obedientemente, sem qualquer reivindicação ou rebeldia. Se o substantivo, seu senhor, estiver no masculino, todos vão para o masculino; se estiver no plural, todos vão para o plural, e assim sucessivamente. A esse fenômeno é que se dá o nome de concordância nominal.

Palavra invariável
Outro feudo, menor em número de súditos, mas tão importante quanto, é o do verbo:

Nesse feudo, cujo senhor é o verbo, que é a palavra que indica o que acontece, aparece a única palavra invariável que contrai função sintática, o advérbio, único e fiel súdito do verbo. Reforcemos essa ideia: o advérbio é palavra invariável, isto é, não tem gênero, número ou qualquer outra flexão.

Se o verbo indica o fato principal, o advérbio indica-lhe as circunstâncias, ou seja, os fatos secundários que acompanham o fato principal. Assim, em "Ontem choveu torrencialmente na região central da cidade", temos que o fato principal é "choveu", e os fatos secundários, expressos pelos advérbios, são "ontem" (tempo), "torrencialmente" (modo ou intensidade) e "na região central da cidade" (lugar). É só olhar um BO (Boletim de Ocorrência) de trânsito que teremos noção mais clara de fato principal e de fato secundário: o acontecimento central é a ocorrência de uma batida ou atropelamento; o como, o onde, o porquê, o quando são os fatos secundários.

EUFONIA E A ATRAÇÃO DE PALAVRAS

Como temos de juntar as palavras para compor orações, frases, textos, é até natural que haja atração entre elas. Todos já ouviram falar que uma frase como "Ela não nos viu lá" é eufônica, enquanto que "Ela não viu-nos lá" é cacofônica. E a primeira é eufônica mesmo, visto que as palavras negativas (como esse "não") têm o vezo de atrair os pronomes oblíquos átonos (como esse "nos").
Mas há outras atrações. Em clichês e redundâncias, por exemplo, há uma atração tácita, mas muito forte entre as palavras, sem que percebamos isso, e eles acabam se tornando clichês e redundâncias por isso mesmo. Quantas vezes você já ouviu o desnecessário "elo de ligação"? Ora, se é elo, tem de ligar alguma coisa. Mas as pessoas usam por atração. A função ("ligar") é tão forte na ação que faz o "elo" incorporá-la. Há outros chavões que se montam por atração: "Temos em mãos sua carta" ou "Levamos ao seu conhecimento". Seria tão fácil entrar diretamente no assunto, em vez desses chavões: Informamos que...
As redundâncias nada devem à desnecessidade dos cha- vões. Assim, "Conduzir uma investigação a respeito" ficaria tão melhor e simples se fosse usado apenas o verbo "Investigar". Também é bem redundante "Comparecer em pessoa". Basta "comparecer", mesmo porque não há como comparecer de outra forma. Etc. etc.
Você se lembra de quantas vezes leu "Venho por meio deste/a comunicar..."? É claro que se está usando aquele meio (seja carta, e-mail, memorando etc.) para se comu- nicar e, portanto, não precisamos da expressão em si. Mas muitos insistem em usar, porque há atração, nesse tipo de correspondência tacitamente empresarial, entre o "venho" e o "por meio deste/a". Evite a toda prova!
No entanto, é esse tipo de atração que faz ficar corretas frases como "Elas estavam todas angustiadas" ou "As meninas gritavam todas alegres". Em orações desse tipo, a palavra todas é advérbio, equivalente a 'totalmente', "completamente" e, portanto, deveria ser invariável. No entanto, por atração dos adjetivos "angustiadas" e "ale- gres", a palavra foi flexionada em gênero e número. Não flexioná-la também é correto: "Elas estavam todo angus- tiadas" ou "As meninas gritavam todo alegres".
O mesmo acontece com a palavra "próximo" na frase "Elas estavam próximo das grades". Aqui podemos usá-- la sem flexão ou flexionando-a, concordando com "Elas". Em outras palavras, podemos usá-la com a equivalência de um advérbio (sem flexão) ou com a de um adjetivo, flexionando-a. Tudo é atração. Já com a palavra "direto", em frases como "A moça foi direto à gerência", ainda só a podemos usar sem flexão.

Qual a diferença essencial entre os súditos do substantivo e o súdito do verbo? É simples. Aqueles são palavras variáveis, e o advérbio é palavra invariável. Dito isto, resta esclarecer que o advérbio é a única palavra que espontaneamente trabalha nos dois feudos. No feudo do substantivo, o advérbio presta seus serviços ao adjetivo, acrescentando-lhe basicamente a circunstância de intensidade. Assim, em "Ela é uma garota bela", há diferença de intensidade na qualificação com "Ela é uma garota muito bela", na qual o advérbio "muito" se encarrega de ampliar, intensificar a qualidade distintiva do substantivo "garota", agregada pelo adjetivo "bela". E é uma coisa tão íntima, tão simbiótica entre o adjetivo e o advérbio, que eles participam juntos do fenômeno da gradação do adjetivo: nesse caso citado, temos o adjetivo "muito bela" no grau superlativo absoluto analítico. Se você, usuário da língua, quiser dispensar o advérbio, usará então, para dar a mesma intensidade, o superlativo absoluto sintético: "belíssima".

Enfim, a frase-título
Na frase-título deste texto, 'COLOCADOS' é particípio do verbo colocar, indicando posição. Há uma discussão praticamente centenária e interminável entre bons gramáticos se antes de particípio se usa a forma sintética (melhor, pior) ou a analítica (mais bem, mais mal). O fato é que há fartos exemplos de bons autores usando uma ou outra. Exemplifiquemos apenas a menos sugerida, a sintética. Napoleão Mendes de Almeida, que só aceita a forma analítica, no Dicionário de Questões Vernáculas cita: "As suas ações são mal vistas e pior imitadas", de Vieira, e "Outros mais confiados e melhor aconselhados", de Camões. Já Zélio dos Santos Jota, que aceita as duas formas, no seu Glossário de Dificuldades Sintáticas recomenda que é "Melhor consultar a eufonia, que nos recomenda, por exemplo: "Foi bem pedida e melhor executada. Foi bem pedida: executada, foi melhor".

De qualquer forma, embora possamos usar as duas formas, os gramáticos e filólogos preferem e recomendam o uso da analítica (mais bem). Mas, se você optar pela forma sintética, fique atento e não cometa a heresia de flexionar uma palavra invariável como o advérbio. É como se você pluralizasse "sempre", "não" e "hoje", formando frases como "Eles sempres estiveram aqui", "Agora elas nãos compareceram" ou "Hojes talvez as três compareçam".

Advérbio é palavra invariável! A pluralização do advérbio é o erro da frase que serviu de mote para este artigo: ESSES SÃO OS QUATRO MELHORES COLOCADOS DO CAMPEONATO. Ao optar por essa frase, o locutor deveria ter deixado a palavra MELHOR assim, sem nenhuma flexão, porque ela é um advérbio, visto que sua atuação é sobre o adjetivo COLOCADOS. Qualquer palavra que atue sobre um adjetivo é obrigatoriamente um advérbio. Invariável, portanto.

Assim, prefira usar a forma analítica em "Eles estavam mais bem informados do que nós", "Os adolescentes são mais bem preparados do que os adultos no manejo de computadores", "Os dândis são mais bem vestidos do que o resto da humanidade".

 



 

 

<< Anterior | 1 | 2 | 3 | Próxima >>

 
 
Conhecimento Prático Língua Portuguesa :: 11/12/14
Será Realmente dislexia?!
Conhecimento Prático Língua Portuguesa :: 11/12/14
Avaliar ou Examinar
Conhecimento Prático Língua Portuguesa :: 11/12/14
Curiosidades linguísticas

Conhecimento Prático Filosofia :: Reportagens :: Edição 23 - 2010
Mito da Caverna:


Conhecimento Prático Filosofia :: Reportagens :: Edição 44 - 2013
A falsa citação de Voltaire


Conhecimento Prático Filosofia :: Idéias :: Edição 37 - 2012
O amor filosófico e o puro prazer


Conhecimento Prático Filosofia :: Capa :: Edição 28 - 2011
Hannah Arendt, pensadora da política e da liberdade



Edição 50

Saiba antes de todos as novidades da revista




Capa
Reportagens
Etimologia
Gramática Tradicional
Ensino
Estante
Retratos

Assine
Anuncie
Expediente
Fale Conosco
Mande sua sugestão
Favoritos


Faça já a sua assinatura!

Filosofia


Assine por 1 ano
12x de R$ 9,80
Assine!
Outras ofertas!
Conhecimento Prático Geografia

Assine por 2 anos
12x de R$
9,80
Assine!
Outras ofertas!
Conhecimento Língua Portuguesa

Assine por 2 anos
12x de R$
9,80
Assine!
Outras ofertas!
Conhecimento Prático Literatura

Assine por 2 anos
12x de R$
9,80
Assine!
Outras ofertas!

  ContentStuff - Sistema de Gerenciamento de Conteúdo - CMS