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Semântica

Entre (linhas) entre palavras


Dar sentido às palavras a partir de sua relação umas com as outras ou do contexto em que se inserem pode trazer surpresas inimagináveis.


Edmilson José de Sá*

preconiza Saussure
Quando Saussure define a relação entre significante (a imagem acústica) e significado (o conceito), o sentido do signo deixa de depender de um referente fora da língua (o "mundo real") e passa a ser determinado por uma relação entre duas grandezas linguísticas.

Partindo para as relações gráfico-fonéticas, a perspectiva da homonímia parece ser bastante relevante para a compreensão dos significados. John Lyons a conceitua como uma propriedade semântica característica de duas unidades lexicais que partilham a mesma grafia ou a mesma pronúncia, mas que conservam significados distintos. Basta considerar a lexia cabo, que tem dois significados paradoxais. O mesmo acontece com são, nora, fio, canto, e tantos outros. Quando as lexias têm as mesmas formas fonéticas, mas, assim como na homonímia, também possuem significados paradoxais, trata-se da homofonia, tal como ocorre em passo / paço; sem / cem. Se elas possuem a mesma forma gráfica e formas fonéticas idênticas, mas conservando significados diferentes, ocorre a relação de homografia. Exemplos como copia e cópia, doméstica e domestica, e se, este e Este são homógrafos. Já quando as unidades lexicais possuem sentidos diferentes, mas com formas relativamente próximas, como acontece em emigração / imigração; previdência / providência; cumprimento / comprimento; conjectura / conjuntura, aí já ocorre a paronímia.

Frege
Friedrich Ludwig Gottlob Frege (1848 - 1925), matemático e filósofo alemão. É considerado, ao lado de Aristóteles, o maior lógico de todos os tempos. Foi um dos fundadores da lógica simbólica moderna, partindo do princípio que a matemática é redutível à lógica. Para Frege, "todo bom matemático é pelo menos meio filósofo, e todo bom filósofo é pelo menos meio matemático". Em Sobre o Sentido e a Referência (1892), Frege apresenta um paradoxo envolvendo semântica e epistemologia, trabalhando com sinônimos e a possibilidade de uma pessoa desconhecer a relação de sinonímia.

O sentido baseado no contexto
A semântica moderna tem apresentado processos de análise de sentido que relacionam a verdade das sentenças. Exemplo disso é o caso da pressuposição. Uma sentença pressuposta pode ser entendida com base na verdade de outra, mas também é uma informação considerada como algo já conhecido pelos interlocutores. Ao dizer "Estados Unidos negociarão com o Iraque", a marca linguística representada na oração pelo verbo negociar no futuro implica a compreensão de não houve até o momento a negociata. Assim, como afirma Oswald Dicrot, a pressuposição é um "pano de fundo da conversação", sem o qual as informações novas não podem ser compreendidas ou não soam naturais.
No exemplo "Papa reclama justiça para o trabalhador", pressupõe-se que não há justiça para o trabalhador, por conta do verbo "reclama", que é a marca linguística existente na oração. As marcas ou indicadores linguísticos podem ser advérbios como no exemplo "Os resultados da pesquisa ainda não foram divulgados; "verbos como nos exemplos previamente mencionados e adjetivos, como ocorre no exemplo "É preciso acabar com as dívidas inalteráveis".
As orações adjetivas, ora diferenciadas apenas pelo uso das vírgulas, quando intercaladas na oração principal, também trazem um conteúdo nas suas entrelinhas. No exemplo "Os amigos da vez, que moram sempre na vizinhança, precisam acompanhar os jovens nas baladas", há duas mensagens pressupostas. Na oração entre vírgulas, entende-se que todos os amigos da vez precisam acompanhar os jovens nas baladas. Se tirar as vírgulas da oração intercalada, a informação se restringiria apenas aos jovens da vizinhança.

Cinzas de vulcão na Islândia se espalham e voltam a ameaçar Europa
Mais restrições de voos são esperadas para este domingo na Europa, enquanto a nuvem de fumaça do vulcão Eyjafjallajokul, vinda da Islândia, se aproxima do sul da França, Suíça, e norte da Itália.
Folha de São Paulo, 9/5/2010, da Reportagem Local.

 

Pressuposição
A noção de pressuposição funciona em sintonia com a de acarretamento, que também se relaciona ao conceito de verdade da sentença. Uma sentença acarreta outra sentença se a verdade da primeira garante, necessariamente, a verdade da segunda, e a falsidade da segunda garante, necessariamente, a falsidade da primeira.

Na manchete acima, percebe-se as múltiplas possibilidades de constatação das implicitudes textuais. A locução verbal voltar a ameaçar afirma nas entrelinhas que as cinzas já tinham ameaçado a Europa antes e, agora, só estavam se manifestando novamente.
A questão da pressuposição é definida de várias formas. Gustaf Frege, por exemplo, dizia em 1892 que sempre que se afirma algo, existe pressuposição óbvia de que os nomes próprios simples ou compostos que são utilizados têm denotação (referência), ou seja, quando uma pressuposição falha, nenhuma asserção foi realizada e a proposição é, em consequência, indecidível. Já na visão de Strawson de 1952, dizer que um enunciado pressupõe outro significa dizer que a verdade do primeiro enunciado é condição sine qua non para a verdade ou a falsidade do segundo enunciado. Para ele, interessa menos "o que se está dizendo" e mais "o fato de se estar dizendo algo". Mais recentemente, cabe a teoria de Ducrot, segundo a qual é inadequado supor a pressuposição como uma condição de emprego dos enunciados. O falante afirma a evidência da pressuposição do seu enunciado, porque a evidência não é afirmada, mas é testada. O falante julga que o ouvinte já possua informações sobre a pressuposição. Isso ocorre porque a informação explícita pode ser questionada pelo ouvinte, que pode ou não concordar com ela. Os pressupostos, no entanto, têm que ser verdadeiros ou menos admitidos como verdadeiros, pois é a partir deles que se constroem as informações explícitas. Assim, se o pressuposto é falso, a informação explícita não tem fundamento.
No caso do exemplo "Sandro melhorou da azia", diz-se explicitamente que, no momento da fala, Sandro não está com azia, porém o verbo melhorar transmite a ideia implícita de que Sandro tinha azia antes. Por isso, não haveria nexo dizer que ele melhorou da azia, sem estar doente antes.
Em suma, ao ler e interpretar um texto, é relevante detectar os implícitos, verificar o que há nas entrelinhas, pois tais recursos ajudam o falante ou ouvinte a aceitar o enunciado proposto. Desta forma, eles se tornam cúmplices, pois se a ideia não é posta em discussão, os argumentos que surgem a posteriori só auxiliam na confirmação da ideia.
Estudar a língua e os sentidos que ela promove em suas áreas de manifestação é sempre atraente. Conhecer a língua em seus pormenores, em suas entrelinhas comprova e reforça a ideia saussuriana de que há, de fato, uma espécie de "rede associativa" por onde é possível prever, embora com pouca certeza, possíveis sentidos futuros a serem incorporados por uma determinada palavra.

 

Outros fenômenos semânticos entre palavras
A homonímia é resultado da coincidência entre significantes de palavras com significados distintos, como a fruta manga e a manga da camisa. Apesar de terem a mesma imagem acústica (ou seja, o mesmo significante), as duas palavras têm significados diferentes.
Já na paronomásia, significantes com imagens acústicas semelhantes podem ter seus significados aproximados por meio de recurso poético ou de um equívoco de vocabulário. Por fim, a polissemia se volta para a similaridade do significado: são palavras com mais de um significado para um mesmo significante, em oposição à monossemia, que possuem apenas um significado específico - em geral, palavras técnicas, por meio de definições construídas em seus discursos, realizam operações sêmicas que transformam palavras polissêmicas em monossêmicas.

 

* Doutorando em Letras pela Universidade Federal da Paraíba e Mestre em Linguística pela UFPE. Contato: edmilsonjsa@hotmail.com

 

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