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Linguagem e realidade social. Espelhamento ou construção?


O processo de construção de sentido social e a relação com a linguagem.


Por Iran Ferreira Melo


Durante muito tempo, grandes questionamentos foram feitos, nos estudos sobre a linguagem, acerca da relação entre as palavras e o mundo. Desde o período clássico, reflexões filosóficas sobre como nos referimos ao mundo através da linguagem estiveram presentes na agenda teórica de todo pensamento ocidental. Com várias formas de nomear (referenciação, representação, significação, categorização), a relação existente entre um dizer (falar ou escrever) e um não dizer (objeto do pensamento ou da realidade empírica) vem inquietando filósofos e linguistas e servindo como base para a composição de inúmeros paradigmas teóricos há séculos. A primeira discussão sobre o assunto foi empreendida por Aristóteles.

O filósofo grego já previa uma relação do mundo com a linguagem. Para ele, essa relação ocorria através de um processo intralinguístico, por meio de mecanismos criados na predicação verbal – formas de os homens organizarem dentro do próprio sistema verbal – todas as coisas existentes. As palavras, no pensamento aristotélico, não possuíam sentido isoladamente, mas apenas quando relacionadas a um processo de predicação verbal, através do qual atribuímos sentido ao mundo. Conforme o que o filósofo grego preconizava, é devido às predicações que os vocábulos fazem referências ao mundo. Para ele, o processo de categorização daquilo que nos rodeia se realiza, por excelência, na imanência da língua.


Postulando o contrário da concepção aristotélica, muitos estudos recentes sobre o assunto afirmam que aquilo que damos a entender com nossos usos linguísticos não está previsto de uma vez por todas no sistema da língua, e sim nas formas de vida. Segundo esses estudos, efetivamos o processo de construção de sentido na relação que a linguagem possui com a vida social. Eles defendem que não é possível nos referirmos à realidade social se não for por meio da linguagem, pois essa é a base de qualquer processo remissivo do que existe no mundo. Entretanto, o fornecimento de sentido ao que se escreve ou ao que se fala não depende apenas da construção linguística, mas está profundamente imbricado aos fatores de ordem sociocognitiva.

Essas duas formas de identificar a função da linguagem face à construção social foram debatidas através de vários postulados epistemológicos durante os séculos. Por isso, para identificarmos como o exercício de relacionar a prática linguística à prática social foi discutido em várias épocas, convido você a excursionar por alguns desses postulados. Veremos, em nossa excursão, que houve muito mais discordâncias do que consenso na história das teorias sobre o assunto.

Diádica
A visão do signo como díade o divide entre um significante (continente) e um significado (conteúdo), sem discutor o objeto da realidade ao qual o signo se refere, considerado como extralinguístico. Ferdinand Saussure afirma que só podemos perceber ícones e índices por meio dos signos linguísticos, que fazem um recorte da massa do pensamento. A definição diádica de signo também era usada pelo lituano Algirdas Julien Greimas, que partiu das ideias de Hjelmslev para considerar que a semiótica é estabelecida entre a categoria do significante e do significado, ao mesmo tempo indefinidas e fixadas em um determinado contexto.


A REPRESENTAÇÃO SOCIAL POR MEIO DA LINGUAGEM: UM PANORAMA

Hoje, os estudos linguísticos entendem não ser eficaz tratar da relação língua/realidade social como, estritamente, um processo de representação, e sim como uma atividade de co-construção da realidade. No entanto, até essa concepção se firmar, surgiram diversas propostas teóricas. Podemos apresentar algumas das mais emblemáticas.

Na Grécia Antiga, por exemplo, a sociedade já procurava entender essa relação. Platão, Aristóteles e os estoicos já teorizavam sobre como a linguagem possui significado na relação com o que não é linguístico.

Essa relação foi pensada pelos gregos a partir da diádica entre um elemento que representa e um representado. Essa relação se configurava num espelhamento entre um elemento e outro, fornecendo a ambos a possibilidade de refletirem entre si. O elemento que representa passou a ser chamado de signo daquele que é representado e este se tratava sempre de uma coisa a qual se podia representar.

Os estoicos criaram a tríade de composição do signo, que passou a ser revista, durante muitos séculos, por aqueles que pensavam filosoficamente a relação linguagem/realidade social: o triângulo composto por semaînon (significante ou palavra), semainómenon (significado ou sentido atribuído à palavra) e prâgma (objeto que a palavra representa).

 

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