 Edgar Allan Poe por Rubens Francisco Lucchetti
| Comemorações |
| Cinco grandes cidades norteamericanas celebram o bicentenário de nascimento Poe: Boston, Richmond, Baltimore, Filadélfia e Nova York. Com exposições de originais, leituras, debates acadêmicos e, em Baltimore, uma encenação de seu funeral. Algo funesto, ao estilo de um autor de contos de horror. |


"Nenhum
homem que tenha vivido
conhece mais sobre a
vida depois da morte
que eu ou você. Toda
religião simplesmente
desenvolveu-se com
base no medo, ganância,
imaginação e poesia."
Edgar Allan Poe

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"Eu nunca fui desde a infância jamais semelhante aos outros. Nunca vi as coisas como os outros as viam. Nunca logrei apaziguar minhas paixões na fonte comum. Nunca tampouco extrair dela os meus sofrimentos. Nunca pude em conjunto com os outros Despertar o meu peito para as doces alegrias, E quando eu amei o fiz sempre sozinho. Por isso, na aurora da minha vida borrascosa evoquei como fonte de todo o bem o todo o mal. O mistério que envolve, ainda e sempre, Por todos os lados, o meu cruel destino..."
Publicado postumamente na edição de setembro de 1875 do Scribner's Magazine
Há duzentos anos, o dia 19 de janeiro de 1809, na cidade de Boston , foi certamente um dia de muito sol, com réstias de luz, intrusas, a aureolarem o menino que nascia para ser um dos máximos poetas e escritores do século 19. O céu, uma abóbada azul, maculada aqui e ali com buquês de nuvens brancas, embebia tudo com uma claridade intensa, dando certa diafaneidade às coisas, como que mergulhadas num halo de luz, fixando com júbilo a boa nova. Nascera Edgar Poe.
Com as portas e janelas fechadas, as casas da vizinhança ofereciam o aspecto de rostos patéticos e emudecidos. Aspirava-se no ar esse espanto peculiar que nos proporcionam os contos de Poe, essa aversão de morte que aniquila a razão, uma sombra, do corvo talvez, a pairar sobre tudo, um presságio que o arrebatou do cotidiano.
O pai, David Poe Jr., provém de uma família que se distinguiu durante a Guerra da Independência Americana . A mãe, Elizabeth Arnold, nascida em Londres, em 1787, emigrou nova para a América, abandonando tudo para seguir a carreira teatral, tendo certa notoriedade como atriz. Ela é descrita como "Franzina com grandes olhos misteriosos e longos cabelos de um negro azeviche, mignon, membros frágeis e uma fisionomia altiva." Mas David, ator menos que medíocre, é, além disso, um alcoólatra. Nascem-lhes sucessivamente três filhos: William Henry, em 1807, Edgar e Rosálie, em 1810. Tuberculoso, com a saúde minada pelo álcool, David morrerá alguns meses após o nascimento de Edgar. Uns alegavam que sua morte foi devida a excessos alcoólicos; outros, como Harvey Allen, afirmam que havia abandonado a esposa, por terlhe sido infiel, pouco antes de ter nascido o último filho. Elizabeth, tísica e esgotada pelos sucessivos partos, com o esmagador encargo da família, vê-se na mais extrema miséria em Boston, uma cidade tida como nada hospitaleira.

Com a saúde minada, no auge do desespero, ela parte para o sul, deixando Henry aos cuidados de sua cunhada Maria Clemm, residente em Baltimore, arrastando consigo Edgar e Rosálie. A última etapa de seu derradeiro calvário é Richmond, em Virginia.
Miséria absoluta
E quando várias pessoas visitaram a enferma, no apogeu da decadência, encontraram- na estendida sobre o leito, nos derradeiros momentos, sem dinheiro e sem conforto ou o que comer, em profundo desespero, sem absolutamente nada. Os filhos nus, sujos com as faces esguias de tanta fome experimentada, desfazem-se em choros sem fim, apesar dos carinhos dispensados por uma velha criada, que os acompanhava desde os dias de glória, em que resquícios dos aplausos entravam pelas frinchas. E, para enganar-lhes a fome, dava-lhes côdeas de pão preto e duro, molhados em gengibre.
A 7 de dezembro de 1811, a imprensa anuncia um recital em beneficio de Elizabeth Arnold Poe. Elizabeth exala o último suspiro no dia seguinte, com a idade de 24 anos. Edgar e Rosálie são deixados sob os cuidados da companhia. Para Edgar foi o primeiro passo para uma terrível familiaridade com a Morte.
Mas o infortúnio, tal qual A Máscara da Morte Rubra, achava-se à espreita. Poucos dias após a morte da mãe, um terrível acontecimento vem atingir os infelizes órfãos. Na noite de Santo, o teatro onde antes a senhora Poe havia representado, é destruído por um incêndio, no qual perdem a vida sessenta espectadores. Os atores veem-se forçados a ir procurar trabalho em outras paragens, confiando os filhos de Elizabeth à burguesia local.
É necessário acentuar estes dias do infortúnio, para que se possa compreender em parte a existência dramática e o gênio incomum de Poe, que trazia, desde o berço, o estigma de um alcoolismo hereditário, sendo que toda a sua existência foi uma árdua batalha sem fim entre dois instintos antípodas: de um lado a firme resolução de não beber, e, de outro, a depressão, o mutismo que o assaltava frequentemente, a morbidez funesta que o intoxicava de complexos e a irresistíve1 volúpia de procurar na bebida um estimulante que lhe atenuava a adversidade que via em tudo, entregando-se à embriaguez, sendo então protagonista das cenas mais humi1hantes e asquerosas a que um ser humano pode se entregar.
A todo momento quebrava as promessas que fazia para se corrigir, e os atos que lhe comprometiam e afeiavam seu nome desanimavam todos aqueles que se esforçavam de furtá-lo àquela degradante vida.
A adoção
Entretanto, sua existência despida de sorrisos foi agraciada. Rosálie é adotada por um comerciante rico, William Mackenzie. Frances Keeling Valentine, esposa do abastado negociante John Allan encarrega-se do garotinho. Não tem filhos e leva o pequeno Edgar para o seu lar, um suntuoso edifício branco "onde flutua o perfume do tabaco e do punch, e também o odor mosqueado dos escravos." Apesar da oposição lavrada do sr. Allan, Edgar é batizado na Igreja Presbiteriana , e acrescentam-lhe ao nome o do seu pai adotivo; na verdade, a adoção nunca será oficialmente homologada. Aos 6 anos, o filho dos saltimbancos sabe ler, desenhar e cantar. Frances Allan e sua irmã, Anne Moore Valentine, cercam-no de um afeto sufocante, exclusivista, satisfazendo- lhe todos os seus caprichos. "A minha palavra fazia lei em toda a casa, e, na idade em que poucas crianças são arrancadas às saias das mães, eu, senhor dos meus atos, podia entregar-me aos impulsos da minha vontade."
A vida na Inglaterra
Em 1815, no dia posterior ao da derrota de Napoleão, John Allan, com os negócios comprometidos pela Segunda Guerra da Independência devido ao bloqueio naval das costas americanas pelos ingleses, resolve tentar a vida na Inglaterra, instalando-se em Liverpool. Edgar é mandado primeiro a Irvine, na Escócia, para a casa da severa Sra. Mary Allan, tia de seu pai adotivo. Posteriormente, é matriculado em Londres, na escola de meninas Debeurg, mais tarde transferido para o Colégio do Reverendo Bransky, em Stoke Newington. Assim, Poe descreve o lugar: "Uma aldeia afagada numa multidão de árvores gigantescas e nodosas e onde todas as casas pareciam excessivamente velhas."
Mas os negócios de John Allan não se desenvolveram da forma como ele esperava e, além disso, o clima úmido da Inglaterra se mostra nocivo à saúde frágil de sua mulher, Frances. Assim, em 1820, ele regressa à América. Se esses cinco anos não correram a John Allan da forma como ele esperava, trouxeram algum benefício a Edgar, que teve algumas noções de francês, latim, história e literatura. Não é muita coisa, mas também serviram para enriquecer sua imaginação febril, impressionada pelos castelos misteriosos, pelas casas decrépitas, pelas cavas úmidas e pelos corredores escuros, nos quais ele pressente a presença do sobrenatural.
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